14 de janeiro de 2018 às 02:00

Restos literários de Arthur Miller geram disputa milionária nos EUA

O lugar de Arthur Miller (1915-2005) no panteão da literatura americana do século 20 está seguro. Mas seus restos literários estão no limbo desde 2005.

O lugar de Arthur Miller (1915-2005) no panteão da literatura americana do século 20 está seguro. Mas seus restos literários estão no limbo desde 2005.

Mais de 160 caixas com manuscritos e outros papéis estão há décadas em um depósito no Centro Harry Ransom da Universidade do Texas, em Austin, aguardando venda formal. Não foram catalogados e estão virtualmente inacessíveis a estudiosos.

Outro depósito de papéis, incluindo 8.000 páginas de seus diários, ainda estava na casa de Miller, na zona rural do Connecticut. Apenas pessoas do círculo íntimo do escritor tinham acesso a eles.

O Centro Ransom acaba de adquirir o arquivo inteiro por US$ 2,7 milhões (cerca de R$ 8,7 milhões), após uma disputa discreta com os herdeiros de Miller, que haviam tentado levar os papéis para a Universidade Yale, apesar do aparente desejo do dramaturgo de que ficassem no Texas.

A disputa levou duas das instituições mais prestigiosas e endinheiradas do país a se enfrentarem em um minidrama que misturou princípios elevados, próprios de Miller, com competição acirrada.

E abre janela sobre o comércio rarefeito de papéis de escritores, além das manipulações delicadas de dinheiro, emoção e temor com a posteridade que determinam o destino desses documentos.

O arquivo de Miller abrange 98 metros de materiais e é sem dúvida muito rico. O material documenta toda a carreira pública do dramaturgo, do desenvolvimento de peças clássicas, como "Morte de um Caixeiro Viajante" e "As Bruxas de Salem", ao enfrentamento com o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara e o combate à censura.

Há também materiais intensamente pessoais, incluindo cartas familiares e rascunhos de um texto sobre Marilyn Monroe, segunda esposa de Miller, que começou a escrever no dia do funeral dela e revisou durante muitos anos, mas nunca publicou.

Mas o veio mais fértil talvez esteja nos diários, que cobrem mais de 70 anos e misturam fragmentos de obras no processo de serem escritas com reflexões íntimas.

"Arthur escrevia sobre tudo em seus diários", disse Julia Bolus, que foi assistente de Miller durante anos e dirige a Fundação Arthur Miller, que está coeditando um volume de seleções. "Eles eram o lugar onde todos os elementos de sua vida se juntavam."

Os diários só poderão ser acessados por pesquisadores após a publicação do volume de seleções, pela Penguin Press. Uma vez disponíveis, diz Stephen Enniss, diretor do Centro Ransom, "vão mostrar um de nossos melhores dramaturgos de maneira muito completa e humana".

MERCADO COMPLEXO

Os papéis de Miller perpassam o século 20 americano em conteúdo e materiais, desde cadernos comuns com capas de desenho marmorizado até prints de computador.

Mas sua trajetória até o Texas também ocorreu ao longo de quase 60 anos de ascensão do mercado moderno de papéis deixados por escritores, que evoluiu de um negócio regido por acordos verbais para um setor altamente competitivo e marcado por preços às vezes estarrecedores.

A relação de Arthur Miller com o Centro Ransom começou no início dos anos 1960, quando o centro, munido de dólares petrolíferos, emergia como ator agressivo no setor.

Sem dinheiro e precisando pagar dívida grande à Receita americana, Miller, em troca de dedução de impostos, doou ao centro 13 caixas de materiais, incluindo manuscritos e cadernos de anotações para peças que escreveu.

Em 1983, quando um incêndio danificou a casa de Miller em Roxbury, Connecticut, ele enviou 73 caixas ao Texas para serem guardadas em segurança. Em carta que está no Centro Ransom, ele disse que queria transferi-las por meio de venda ou, se a dedução de impostos (eliminada nos anos 1970) fosse restaurada, de uma doação.

Em janeiro de 2005, semanas antes de sua morte, aos 89, Miller enviou mais 89 caixas ao Centro Ransom, que concentra também os papéis de Tennessee Williams, Lillian Hellman e Stella Adler.

O acadêmico britânico Christopher Bigsby, amigo de longa data de Miller que teve acesso ao arquivo para escrever a biografia dele, de 2009, comentou: "Ele sempre me disse que o material iria ao Texas, o único lugar lógico".

Stephen Enniss disse que entrou em contato com os herdeiros de Miller em 2013, pouco depois de tornar-se diretor do Centro Ransom, para discutir a aquisição do restante do arquivo. Meses mais tarde ele visitou a casa de Miller para ver os diários e outros materiais no local.

Em 2014 o Centro Ransom fez o que chamou de "oferta de boa fé". Mas disse que a agência Wylie, representante dos herdeiros, "nunca entrou em uma negociação real".

No verão de 2015, três profissionais da Biblioteca Beinecke de Livros e Manuscritos Raros de Yale visitaram o Centro Ransom para inspecionar a coleção Miller. Yale então ofereceu US$ 2,7 milhões pelos materiais no depósito e por 70 caixas ainda em posse dos herdeiros de Miller.

O Centro Ransom fez oferta de valor igual, que Enniss descreveu como "agressiva", mas se negou a oferecer mais, citando a carta de 1983 de Miller. "No nosso entendimento, um compromisso legal tinha sido assumido e tínhamos direito de recusa", explicou.

Sarah Chalfant, da agência Wylie, disse que os herdeiros tinham discutido com o Centro Ransom "exclusivamente por mais de um ano, em negociações conduzidas com boa fé". Ela se negou a comentar a carta de Miller de 1983, mas disse que a família "examinou cuidadosamente os desejos expressos por Miller sobre esse assunto ao longo de sua vida". A executora literária é a filha Rebecca Miller, escritora e cineasta.

Os herdeiros disseram que "levaram uma série de fatores em consideração" antes de procurar Yale, incluindo o fato de que Miller passou boa parte da vida no Connecticut e que a Biblioteca Beinecke tinha adquirido o arquivo da fotógrafa Inge Morath, terceira esposa de Miller, em 2014.

"No final, decidimos manter o arquivo completo no Centro Harry Ransom, um dos maiores espaços de preservação e pesquisa, onde temos a certeza de que ele será cuidado da melhor maneira possível", disseram.

Como o Centro Ransom possuía os manuscritos das primeiras peças de Miller, doados pelo autor, a venda dos papéis restantes a outra entidade teria contrariado o princípio tradicional de que arquivos não devem ser divididos.

Enniss disse que o Centro Ransom vai continuar a procurar materiais sobre Miller.

Tradução de CLARA ALLAIN

Fonte: FOLHA

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