15 de abril de 2018 às 02:00

Repórter testa novo Mustang: 'A 179 km/h, lembrei que a reta terminava'

Dirigi um Maverick 1974 por quase dez anos, foi meu único carro, não o de fim de semana. Daí a ideia do editor deste caderno ao me convidar para testar o Mustang 2018 que a Ford começa agora a importar para o Brasil.

IVAN FINOTTI
SÃO PAULO

Dirigi um Maverick 1974 por quase dez anos, foi meu único carro, não o de fim de semana. Daí a ideia do editor deste caderno ao me convidar para testar o Mustang 2018 que a Ford começa agora a importar para o Brasil.

Como sou um cara vintage, é claro que me lembrei imediatamente do filme "Bullitt", de 1968. Nele, Steve McQueen, no papel de um policial durão, pula com um Mustang verde-musgo pelas ruas montanhosas de São Francisco.

"Bullitt" imortalizou o carro, por isso solicitei um verde-musgo para que eu pudesse ser feliz nesse teste. Não fui atendido. A Ford informou que, por conta dos 50 anos do filme, uma série especial foi lançada lá fora e a cor é exclusiva para os Mustang Bullitt.

NA RUA

Os jornalistas fomos convidados para testar a caranga na pista de Interlagos, então me preparei bem: deixei crescer enormes costeletas iguais às de Emerson Fittipaldi em 1972. Fomos reunidos no hotel Palácio Tangará, que é lá para os mesmos lados, parece perto, mas fica a 13 quilômetros de distância da pista.

Detalho isso porque a primeira missão foi dirigir do hotel ao autódromo. Saí seguindo outros dois Mustang, mas o jornalista ao meu lado, um senhor que escreve sobre automóveis há 50 anos, mandou a gente entrar numa rua, seguir por uma avenida com trânsito e depois por outra, e é claro que eu obedeci, já que eu não conhecia nada do bairro e ele sim, pois a netinha dele estudava por ali.

A sensação era esquisita. O carro parece pesado, mas basta um toque no pedal que ele fica leve. A direção, lotada de controles intransponíveis, é rica, assim como a frente de aço escovado e muito couro. O console de plástico, no entanto, me entristeceu.

O ronco é bem ameaçador, mas ninguém pareceu morrer de medo, talvez por ser um Mustang preto e discreto. Mas se pisasse fundo, não podia ter ninguém na frente, pois aquele aparelho pulava para a frente e jogava suas costas para trás num susto inédito.

Para dar uma referência, um Gol 1.0 tem lá seus 80 cavalos. Um Civic 2.0 tem 155 cavalos de potência. E esse Mustang 5.0 V8 em minhas mãos? Possui 466 cavalos.

"Ninguém bate o carro nesses testes?", perguntei ao meu parceiro. "Quase nunca, mas lembro de um jornalista que morreu num Escort XR3 nos anos 1980." Melhor parar com esse papo furado.

Encostei num posto e passei a direção ao vovozinho. Para minha surpresa, ele acelerou loucamente no meio do trânsito enquanto eu me agarrava nos belos detalhes em aço. "Boa arrancada", definiu.

Próximo ao autódromo, começou a chover. Meu jornalista de automóveis preferido mudou o modo de direção do "normal" para "neve/molhado", um recurso que eu não fazia ideia que existia, mas há outros, como esportivo, pista e drag.

Tudo se transforma, da firmeza do amortecedor às mudanças do câmbio. "Agora sim, o acelerador está tranquilo. A direção responde melhor". "Claro", aquiesci, "neve/molhado é o que há."

No autódromo, sairíamos sozinhos, um em cada veículo. Como chovia, não torrencialmente, mas chovia, a equipe resolveu colocar alguns cones na pista. Além disso, um piloto profissional iria na frente de um grupo de quatro jornalistas e outro iria atrás da bateria.

NA PISTA

Largamos, eu num azul-turquesa, o que me animou um pouquinho. Fiquei para trás logo no começo e colaram atrás de mim. Deu um nervosinho e, ao sair da curva, meti o pé no fundo, ouvi um rosnado e dei uma rabeada vergonhosa que parecia que ia acabar no meio da grama.

Estava a uns 80 km/h e o Mustang dançou para a esquerda, para a direita, para a esquerda, para a direita.

Senti o corpo quente de assustado e me indaguei se aquele mecanismo de R$ 300 mil (menos cem reais) ia ficar de ponta cabeça. Mas ele voltou sozinho à normalidade após uns cinco segundos –já eu demorei bem mais.

Pois quando eu voltei ao normal, acelerei na saída de outra curva, rabeei igualzinho, fiquei trêmulo exatamente como antes e o carro assumiu o controle de novo.

Na grande reta, cheguei a 179 km/h e só aí me lembrei que ela terminava. Comecei a frear achando que não ia dar tempo. Tinha uma curva logo ali, meu Deus. Fiquei tão aterrorizado que esqueci de dirigir, apenas brequei e brequei até parar. Deu tempo: o motor morreu, eu não.

Achei que minhas aventuras em Interlagos seriam dignas de alguma bronca ou, no mínimo, de gozações da equipe que aguardava nos boxes.

Mas ninguém pareceu ter reparado como dirijo mal.

Fazer o quê? Chamei um táxi 1.0 e voltei para casa.

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MUSTANG BULLITT

O modelo 1968 dirigdo por Steve McQueen tem motor 6.4 V8 com 320 cv de potência. Duas unidades foram utilizadas no filme.

A Ford diz que diferentes gerações do Mustang aparecem em 3.000 produções de cinema e televisão, seja em destaque ou apenas como figurante.

Fonte: FOLHA

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