12 de janeiro de 2018 às 06:00

Raúl Zurita, o poeta que escreveu no céu e jogou amônia nos próprios olhos

RESUMO Celebrado nos EUA e nunca publicado no Brasil, o poeta chileno Raúl Zurita vem ganhando prestígio no mundo literário hispânico. Protagonista de episódios de automutilação e atuante na resistência à ditadura de Pinochet, ele faz poesia árdua que enl

RESUMO Celebrado nos EUA e nunca publicado no Brasil, o poeta chileno Raúl Zurita vem ganhando prestígio no mundo literário hispânico. Protagonista de episódios de automutilação e atuante na resistência à ditadura de Pinochet, ele faz poesia árdua que enlaça vida e obra, oscilando entre as perspectivas pessoal e coletiva.

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"Meu Deus é fome".
"Meu Deus é paraíso".
"Meu Deus é câncer".

Em Nova York, a 5.000 metros de altura, cinco aviões traçavam 15 versos do poeta chileno Raúl Zurita nos céus do Queens, cada um deles esticados ao longo de seis quilômetros. Naquele azulado 2 de junho de 1982, o poema "La Vida Nueva" passava a competir com as nuvens. Zurita, concentrado nas manobras das aeronaves, ignorava a reação dos pedestres no distrito novaiorquino.

"La Vida Nueva" não era um poema solto no ar: aplacava um ciclo de desespero pessoal no Chile. Em 11 de setembro de 1973, no golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet, Zurita —então com 23 anos— foi preso no estádio de Playa Ancha, em Valparaíso, e depois transferido para o cargueiro Maipo, onde por 21 dias ficou espremido no porão com outras 800 pessoas.

O militante comunista fascinado pela "Divina Comédia" conheceu o inferno dantesco da tortura.

"O golpe de Estado é, para mim, quase uma definição artística e política. Esse fato é o principal de minha vida, marca a minha existência a fogo. Até o ponto de quase decidir que todo livro meu teria a ver com isso", explica Zurita na sala de sua casa, em Santiago. Diante dele há um quadro com o rosto de Kafka desenhado pela artista catalã-chilena Roser Bru.

O poeta e professor de literatura nascido em 1950 tem olhar ameno, barba irregular e pequenos espasmos nas frases emocionadas. Há 17 anos ele enfrenta o mal de Parkinson, doença descrita sem autopiedade: "A mão se arrebenta e você não vê, a cabeça vai pro lado, tem posturas estranhas. É forte".

Vencedor do Prêmio Nacional de Literatura do Chile, em 2000, Zurita é um dos mais influentes escritores chilenos contemporâneos, com prestígio crescente no mundo hispânico, embora desconhecido dos leitores brasileiros.

Ele se recorda apenas da tradução para o português de três partes de seu livro "Anteparaíso" (1982) feita pelo poeta amazonense Thiago de Mello, seu admirador, na antologia "Poetas da América de Canto Castelhano" (publicado pela Global).

No final de 2017, Zurita levou à galeria Isabel Aninat, no bairro de Vitacura, em Santiago, a videoinstalação "Verás un Dios de Hambre" [verás um deus da fome], uma prévia da projeção noturna de 22 versos nas escarpas da costa norte do Chile, no encontro do Pacífico com o deserto de Atacama.

Na sala escura, a voz em off do poeta acompanha as imagens tomadas de helicóptero: "Verás cidades de água/ Verás céus em fuga...".

Zurita entende o projeto —concebido em 2002 e agora perto do fim— como uma metáfora de sua morte, por iniciar-se no crepúsculo. Não será a sua primeira poesia visual no deserto. Em 1993, já durante a democracia, fez com que retroescavadeiras inscrevessem a frase "Ni pena ni miedo" [nem dor nem medo] numa extensão de 3.140 metros no Atacama.

VIDA E OBRA

O poeta americano John Ashbery (1927-2017), vencedor do Pulitzer de poesia em 1976, definiu a obra de Zurita como "acidamente cruel e, finalmente, libertadora".

Nascido em Santiago, Raúl perdeu o pai aos dois anos e atravessou uma infância pobre com a família materna, de origem italiana, influenciado sobretudo pela avó Josefina Pessolo, contadora de histórias extraídas da "Divina Comédia", de Dante Alighieri.

Estudante de engenharia e membro do Partido Comunista, Zurita assistiu à derrocada de Salvador Allende em Valparaíso, onde residia na altura do golpe. Sob a ditadura Pinochet, ele integrou o Coletivo de Ações de Arte (Cada), formado com o sociólogo Fernando Balcells, os artistas Lotty Rosenfeld e Juan Castillo e a escritora Diamela Eltit (sua ex-mulher).

Seus dois primeiros livros, "Purgatorio" (1979) e "Anteparaíso", conferiram força à sua entrada na poesia chilena.

Com um estilo próximo do neobarroco, Zurita partiu, de uma obra a outra, da perspectiva pessoal para a coletiva, enlaçando vida e obra. A capa de "Purgatorio", por exemplo, traz uma foto do escritor com uma atadura na lateral do rosto queimado a ferro.

"Tive um episódio humilhante com os militares, que me levaram arbitrariamente [em maio de 1975]", conta o poeta. "Eram os reis da coisa. Não me fizeram nada. Depois de quatro horas, saí em plena rua com os braços na nuca. Senti tal humilhação acumulada que me recordei da frase de Cristo de que se baterem em sua face direita, ofereça a outra. Então saí, me fechei num banheiro e queimei a minha face."

"Mas não foi uma performance. Porque não foi com fotógrafo. Não gosto de performance. Foi o ato de um desesperado, absolutamente solitário, sem saber bem por que estava fazendo. Era significativo para mim mesmo", ele continua. "Minha vida estava totalmente destroçada. Se não me suicidei é porque era redundante e ridículo suicidar-se num país que estava matando gente."

Em março de 1980, numa nova tentativa de automutilação, jogou amoníaco puro nos olhos, sem conseguir cegar-se. Queimou as pálpebras e uma parte do rosto, lesionando de leve as córneas.

Para suportar a penúria, imaginava coisas impossíveis, como um poema escrito por aviões, concretizado depois em Nova York. "Ampliar os limites da poesia é o que menos me importa", ele avisa e, contrariando a crítica, compara a ação aero-poética à busca dos povos antigos por respostas no céu.

Na Índia, durante a Bienal Kochi-Muziris de 2016, Zurita apresentou a instalação "The Sea of Pain" [o mar da dor], onde os visitantes molhavam as canelas num galpão inundado de água salgada, para ler nas paredes os versos dedicados à crise humanitária dos imigrantes: "Você não me ouve?/ No mar da dor.../ Você não voltará,/ Nunca mais,/ No mar da dor?".

"Sinto que toda a arte, toda a literatura, todas as sinfonias compostas, são os restos de uma batalha cósmica perdida. A tarefa não é escrever verso, nem pintar quadro, nem fazer poema concreto. A tarefa é fazer da vida algo decente. Nós, os chamados artistas, não somos mais do que aves necrófagas que vão traduzindo os escombros de uma batalha perdida", lamenta o poeta.

"É como se nunca tivéssemos saído de Homero: 'Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles'. O primeiro verso da Ilíada. Em certo sentido, ainda estamos na época de cólera do poema homérico."

CHILE

Atualmente casado com a escritora Paulina Wendt, ganhou duas antologias recentes, "Tu Vida Rompiéndose" (Ed. Lumen) e "Verás" (Ediciones Biblioteca Nacional), este último lançado ano passado, na sequência do recebimento do Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda de 2016. Zurita inclui Neruda (1904-1973), vencedor do Nobel de Literatura de 1971, entre suas altas admirações.

"Em 'Canto Geral' (1950), Neruda é como a 'Divina Comédia'. As críticas ao 'Canto Geral' são absolutamente parciais e ideológicas. Em 'Alturas de Machu Picchu', Neruda não é um ser humano. É outra dimensão. Está possuído por uma língua, por uma história. Depois de 'Canto Geral', fez coisas que não valem muito a pena. Mas, quando Neruda era Neruda, em 'Residência na Terra' (1933), não havia obra tão bonita", argumenta.

Impregnado de paisagens rudes e áridas do Chile, o poeta conheceu o deserto de Atacama em 1982. Na viagem de ônibus, despertou com o azul intenso do céu, pressentido num poema escrito cinco anos antes: "Os desertos de Atacama são azuis". Zurita acha difícil racionalizar a presença maciça de rios, penhascos, desertos, praias e cordilheiras na obra de um homem urbano.

"Agora tenho algumas teorias, mas não sei", ele especula. "Sinto que tudo tem um pouco a ver com o golpe de Estado no Chile. Porque nunca me importou a paisagem. Quando veio o golpe, em 1973, começaram toda a coisa patrioteira das canções nacionais. Pensei: qual é o Chile? Pablo de Rokha, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro, Violeta Parra, Nicanor Parra, Gonzalo Rojas, Víctor Jara, ou o país desses cantos fascistas? Qual é? Creio que foi a luta pelo significado. O que significa a cordilheira dos Andes?".

Os focos conservadores da sociedade chilena continuam a preocupar Zurita, que, na campanha presidencial de 2017, gravou uma mensagem de apoio a Alejandro Guillier, o candidato de centro-esquerda derrotado por Sebastián Piñera, de centro-direita.

"No golpe, foi brutal a irrupção da violência. Se tem mitificado que não havia isso. Não é certo. O Chile teve duas guerras, com o Peru e a Bolívia [entre 1879 e 1883], e depois se dedicou à guerra contra os mapuches. Finalmente os dominaram com o Exército. Na história há matanças contra populações operárias. Por um lado, há uma história de democracia entre aspas e de uma grande poesia. Por outro, há uma história de massacres, golpes, revoluções, caudilhismos. Era algo que nós conhecíamos. Uma violência que estava e prossegue", defende.

As memórias da ditadura lhe conduzem a uma expressão sombria e agitada. "Todos os assassinos e torturadores —Pinochet, Hitler ou Stálin— não nasceram no planeta Vênus. Nasceram na mesma cidade, na mesma rua em que estou", diz ele, inconformado com a apuração incipiente dos crimes dos militares.

"As mentiras são tão fortes quanto os assassinatos. Um país que mente sobre a ditadura é um país não solidário, egoísta, arrivista, individualista".

Os horrores políticos não esfriaram Zurita. "Então, espremendo a face queimada/ contra os grãos ásperos deste solo pedregoso/ -como um bom sul-americano-/ elevarei minha cara ao céu por um minuto mais/ chorando/ porque eu que acreditei na felicidade/ voltarei a ver as irrefutáveis estrelas", diz no "Poema Final".

No desfecho da conversa, uma síntese: "Minha utopia é a construção do paraíso na terra". E, com um andar premeditado e abrupto, o poeta cruza o jardim verdejante entre a casa e a rua.

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CLAUDIO LEAL, 36, é jornalista.

Fonte: FOLHA

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