16 de maio de 2018 às 02:00

Ocaso do governo Temer e eleição nebulosa sugerem niilismo ao país

Tentando comemorar seu segundo aniversário, o governo de Michel Temer (MDB) não conseguiu nem fazer um slogan que fosse imune a críticas e recuos. O fim de seu governo, entrelaçado às névoas densas do processo eleitoral mais obscuro desde 1989, trai um go

Tentando comemorar seu segundo aniversário, o governo de Michel Temer (MDB) não conseguiu nem fazer um slogan que fosse imune a críticas e recuos. O fim de seu governo, entrelaçado às névoas densas do processo eleitoral mais obscuro desde 1989, trai um gosto de niilismo.

Não foi por outro motivo que José Sarney, ex-presidente e patrono do MDB, procurou o grão-tucano Fernando Henrique Cardoso para uma conversa na última semana de abril em Nova York â?”onde ambos estavam por motivos distintos.

O tom de Sarney foi grave. Chegou a usar a palavra “intervenção”, sim, aquela, a militar, para descrever seus temores. É exagero, por mais que o clima do país seja o de “prende e arrebenta”, como o esperto governador paulista percebeu ao faturar em cima do caso da mãe PM que matou um bandido â?”ato tão puro de intenção quanto a pesquisa que mandou fazer na sequência para avaliar o efeito da homenagem prestada à policial.

Seja como for, isso disparou os movimentos de contato entre o Planalto e o PSDB, inclusive com o convite declinado pelo ex-senador José Aníbal a integrar a cozinha palaciana â?”sorte dele, já que o grau de radiação política transformou o lugar numa espécie de Tchernobil da política.

Na praça, a dança foi vendida por Temer como uma prova do charme do tempo de TV e recursos do MDB. Não foi isso: houve conversas de fato sobre cenários de ingovernabilidade aguda daqui para o fim do ano. Foi o beijo da morte que uma aliança com Temer significa, além da eventual carnificina de facções que se tornaria uma convenção do MDB para deliberar sobre isso, que afastou os tucanos.

Durante as consultos, um ministro com grande trânsito à esquerda e à direita considera que o pior ainda está por vir do “establishment” judicial-policial para a classe política, colhida pela fase Terror da Operação Lava Jato. A anomia à qual FHC se refere com frequência está à porta, em sua visão.

Há duas semanas, um almoço na casa de um ministro do Supremo comprovou tal temores. Os comensais, colegas de corte e integrantes de outros tribunais superiores, passaram uma tarde debatendo cenários e o papel final que o Judiciário acaba por exercer. O que foi pintado é de assustar assombração.

Curiosamente, tal alarmismo ainda não é tão percebido no andar de cima da economia. Apenas recentemente, ao ser informada a pedidos por um político de vasta quilometragem, a cúpula de um grande banco pareceu entender a precariedade do equilíbrio do país. Um importante empresário de comunicação, em tese mais ligado a esse tipo de informação, passou recente jantar com figurões discutindo amenidades.

Não surpreende afinal que um candidato como Jair Bolsonaro (PSL) tenha estabelecido seu eleitorado, ainda que no teto. E que a centro-direita se preocupe seriamente com a possibilidade de não emplacar Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno, fazendo voltar aqui e ali nomes alternativos para a disputa, como o do tucano João Doria.

Que candidatos a encarnar “o novo” tenham surgido e sumido em igual velocidade. E que o PT, sigla que viu seu messias colhido pela Lava Jato e cujas práticas levaram à deflagração da operação, ainda alimente sonhos de voltar ao poder por exclusão.

Um otimista diria que essa tensão toda se dá pela falta de regras definidas para o jogo. Uma vez estabelecidas as peças e todo o quebra-cabeças de alianças estaduais, algo da névoa tende a se dissipar para racionalizar o tabuleiro.

Pode ser, mas a ciclotimia que afeta o ânimo dos atores políticos do país ainda vai causar muitos sobressaltos, não menos porque o que se assiste é ao desmoronamento do castelo por eles edificado sobre más fundações.
 

Fonte: FOLHA

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