23 de janeiro de 2018 às 02:00

O que o caso Aziz Ansari nos diz sobre os relacionamentos atuais

O relato de uma fotógrafa com o nome fictício de Grace sobre como ela se sentiu pressionada a fazer sexo com o ator Aziz Ansari em um encontro gerou uma nova onda de debate sobre assédio sexual em Hollywood.

O relato de uma fotógrafa com o nome fictício de Grace sobre como ela se sentiu pressionada a fazer sexo com o ator Aziz Ansari em um encontro gerou uma nova onda de debate sobre assédio sexual em Hollywood.

Ele agiu mal ou foi só um caso de sexo ruim? Ela prejudicou o movimento #metoo ao expor um caso que não se trata de assédio ou abuso de poder ou avançou o debate para a intimidade dos relacionamentos comuns? Por que ele continuou insistindo? Por que ela não foi embora? Leia opiniões abaixo sobre como o caso e a discussão que ele gerou ilustram as mudanças nos relacionamentos hoje.

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MARILIZ PEREIRA JORGE
COLUNISTA DA FOLHA

Era de se esperar que décadas depois da revolução sexual as mulheres estivessem mais abertas a se relacionar com menos expectativas românticas, de encontro perfeitos, com homens atenciosos. Não é o que vemos. No século 21, sexo parece ser algo muito precioso, no qual o homem ainda figura como o predador e a mulher é a caça. Muitas parecem pouco preparadas para se defender, para dizer "não", para lidar com tipos inconvenientes e situações que se revelam roubadas.

Não falo de tarados, pervertidos, violentos, estupradores, que devem ser denunciados, mas de inúmeros outros caras decentes com que a gente topa sair para jantar, tomar um drinque, trocar beijos ou transar. A maioria deles não têm o menor talento para o jogo da sedução, não sabem como agir e muito menos como agradar uma mulher, de fato, empoderada.

Onde estão elas (e seus superpoderes) na hora de dizer "não", pegar o telefone e pedir um Uber, se o fulano se revelou muito afoito, se é grosseiro, se não sabe beijar, se tem bafo, se sexo não é opção?

É ingenuidade esperar que homens saibam o que uma mulher quer num encontro –até porque as mulheres são diferentes. É puritanismo que em 2018 tenha gente que ainda ache um absurdo que homens levem mulheres para seus apartamentos e queiram transar. Oh, Deus, ele só queria me comer.

E causa muito estranhamento o argumento de que as mulheres são criadas para agradar, não estão preparadas para dizer "não", que são condicionadas a serem educadas demais para se recusar a fazer mesmo o que não querem. Mesmo que seja um boquete?

Mulheres foram criadas desde sempre para dizer "não", quando o assunto é sexo. Não beije, não deixe passar a mão, não transe, não entre no carro, não vá sozinha à casa de um homem. Você vai ficar com fama de vagabunda. É isso que as mulheres estão cansadas de ouvir.

Esse pensamento de que eles são todos iguais (só querem transar e são uns escrotos) e que todo encontro, por mais desagradável que seja, merece ser exposto, julgado e criminalizado, só serve para colocar a mulher nesse papel de coadjuvante nas relações, de vulnerável, e não de protagonista da sua vida sexual.

Sexo sem consentimento é crime. A barreira que separa uma relação consensual de uma forçada é clara. Precisamos diminuir a expectativa de que homens vão agir como esperamos. Não vão. Temos que estar preparadas para dizer "não", pegar a bolsa e ir embora. Ou ficar e ter maturidade para saber que as coisas podem sair diferente do esperado.

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VERA IACONELLI
COLUNISTA DA FOLHA

Aziz Ansari, estrela de Hollywood, é o acusado da vez por assediar sexualmente uma jovem fotógrafa chamada Grace (nome fictício). Como vivemos num momento em que temos que ter opinião pronta –e polarizada– sobre tudo, não importando quão pouca informação possamos obter do ocorrido, a forca já está sendo levantada antes do tribunal se instalar.

Trata-se de um evento entre quatro paredes, sobre o qual não temos a menor condição de arbitrar, mas talvez possamos refletir nos seguintes termos: se tiver sido como Grace fez questão de tornar público, o que poderíamos deduzir dessa cena?

Primeiro, que Aziz é um homem inconveniente e presunçoso que só queria transar (algumas mulheres também só querem transar e não há problema nisso, ok?), mas que é tão insincero e ruim no trato que se deu mal. Tipo absolutamente asqueroso e comum, de quem as mulheres se queixam com razão.

Segundo, que Grace é uma mulher que se deixa levar pela insistência do outro, querendo acima de tudo agradar, incapaz de sair de uma situação que, embora tenha sido muito desagradável ou mesmo ultrajante, não envolveu qualquer tipo de ameaça aparente que justificasse sua permanência.

Talvez a ameaça de desagradar –fatal para algumas mulheres– seja seu maior algoz, pois embora pudesse ter dito não, parece não ter conseguido. Se foi assim, infelizmente, Grace e Aziz exemplificam comportamentos anacrônicos e recorrentes de homens e mulheres.

O que subjaz à recente luta, incessante e absolutamente necessária, pelo reconhecimento e punição aos crimes contra mulheres é uma nova expectativa de comportamento dos homens, mas também das mulheres.

Se estamos implicados na mudança do contrato sexual (ler Paulo Gheraldelli Jr no Painel, 16/01/2018 ), comecemos a pensar como nossas filhas têm sido educadas para a subordinação e a necessidade compulsória de agradar e como nossos meninos são igualmente assombrados com o risco de serem chamados de "bananas" desde a maternidade.

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SABINE RIGHETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Na década de 1990, a socióloga e psicóloga social argentina Inés Hercovitch ouviu 85 mulheres em um estudo e chegou a uma conclusão: temos de mudar o que se entende por violência contra a mulher.

É preciso se despir, diz Inés, da ideia de que violação envolve necessariamente uma mulher bonita, um violador desconhecido, arma e luta corporal (é assim, aliás, que a maioria dos países define legalmente a violência contra a mulher). O abuso pode ter outras formas.

Uma das entrevistadas no estudo argentino, por exemplo, relatou que fez sexo "consensual", porém forçado, com um cara que conhecera em um bar e a pressionara, inclusive fisicamente. Inés fala sobre esse estudo no TEDx Rio de La Plata 2015.

Esse tipo de situação virou um assunto porque, nos últimos dias, uma mulher, sob o nome fictício Grace, disse que foi abusada em uma noite romântica (um "date") com ator e comediante Aziz Ansari. Ela contou que se sentiu pressionada para fazer sexo.

Não houve armas, ameaças e nem luta corporal. O cara era conhecido (e famoso). Ela poderia ter ido embora. É um cenário bem distante da imagem mental que temos de uma violação –mas não deixa de ser uma violência.

Grace não disse "sim". Ela poderia estar em dúvida: "talvez" estivesse interessada em sexo –ou não. Pode ter mudado de ideia. Como define uma espécie de cartilha que li recentemente sobre como criar meninos, "não" é "não" e "talvez" também deve ser encarado como "não".

No debate que o caso despertou, houve quem dissesse que Grace teria se colocado, ela própria, naquela situação. Ela escolheu sair com o cara, foi ao apartamento dele.

Dizer que uma mulher não deveria ter feito isso se não quisesse aquilo segue a lógica de achar que mulher que não quiser passada de mão não deve ir ao bloco de carnaval. A mulher é responsável pelo que faz, o homem, não. Parece-me cruel e equivocado.

Em casos como de Aziz e Grace, a comoção é grande porque eles estão muito próximos da gente. É como se, ao interpretar o fato como uma violência real contra uma mulher, você trouxesse para si um perigo que não existia. Há muito mais homens como Aziz por aí do que estranhos armados em becos escuros –e é difícil aceitar isso.

Fonte: FOLHA

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