31 de janeiro de 2018 às 02:00

Nova leva de youtubers leva noções de educação financeira ao público

Aos 8 anos, Nathalia Arcuri, 32, soube que uma amiga tinha uma poupança feita pelos pais para comprar um carro quando adulta. Inspirada, passou a juntar dinheiro. Se um parente precisasse de trocados, emprestava a juros. Aos 18, tinha o valor para comprar

Aos 8 anos, Nathalia Arcuri, 32, soube que uma amiga tinha uma poupança feita pelos pais para comprar um carro quando adulta. Inspirada, passou a juntar dinheiro. Se um parente precisasse de trocados, emprestava a juros. Aos 18, tinha o valor para comprar um carro, mas ganhou um de presente. Investiu e, aos 23, comprou um apartamento. Aos 32, chegou ao primeiro milhão investido.

"Não abri mão de nada, mas tive de criar metas para cada gasto que fazia", conta a youtuber, que hoje lidera o Me Poupe!, maior canal do YouTube de informação financeira do mundo, com quase 1,3 milhão de inscritos.
Arcuri começou a levar sua experiência financeira à internet em 2013, quando resolveu criar um blog para dar dicas de finanças, economia e investimentos. Em 2015, veio o canal do YouTube. "Queria falar de um assunto que ainda não era tão falado em vídeo. Meu intuito é fazer com que as pessoas amem cuidar do dinheiro como eu amo."

Hoje, Arcuri vive do canal, de palestras, de um programa de rádio e de parcerias que faz em redes sociais. Em 2017, seu canal teve um faturamento de R$ 1,8 milhão, e ela espera chegar aos R$ 10 milhões em 2018.
Mas não só de histórias de sucesso vivem os canais on-line. Casos de derrota também servem de pano de fundo para novos youtubers, que simplificam o economês para atingir mais espectadores.

É o caso de Thiago Nigro, 27, do canal O Primo Rico, que perdeu todas as economias que seus pais fizeram para ele em um mau investimento.

"Eles levaram 18 anos para guardar. E eu levei uma semana para perder", conta. A partir daí, começou cursos de certificação em finanças e investimentos, como operador mega bolsa, na B3 (antiga Bolsa de Valores de SP) e agente autônomo de investimentos, passou a dar palestras, e, ao sentir a necessidade de se aproximar de um público maior, foi para a internet. Seu canal, criado em abril de 2016, tem 538 mil inscritos. "Mudamos a forma de falar no assunto", diz ele.

O maior atrativo para esses canais está no fato do espectador ver a educação financeira como novidade. "O brasileiro não costuma ser organizado, não tem controle mensal de entradas e saídas, não se planeja para guardar dinheiro e tampouco pensa a longo prazo", afirma Gabriela Forlin, 29, do canal Mão de Vaca Profissional, com 13,3 mil inscritos.

Levantamento do Datafolha feito entre 26 e 27 de abril de 2017, com 2.781 entrevistados, constatou que 65% dos brasileiros entrevistados não poupavam para o futuro. Para os youtubers, a inclusão da educação financeira no currículo de base de escolas é assunto urgente.

PERFIL DO ESPECTADOR

O público que se inscreve nesses canais é variado: vai desde quem está começando a poupar ("Já recebi e-mail de uma criança querendo economizar a mesada", conta Arcuri) até o investidor que busca melhorar as aplicações.

É esse o nicho do canal de Bernardo Pascowitch, 28, o Yubb, cujo site homônimo busca investimentos de acordo com a quantia e o tempo estipulados pelo cliente. Criada em outubro de 2017, sua página no YouTube conta hoje com 3.000 inscritos.

"Como o mercado já tinha um número suficiente de youtubers, decidi complementar o conhecimento dado por eles", explica Pascowitch, que faz vídeos nas ruas de São Paulo, entrevistando pessoas e apresentando bancos e corretoras. Ele ainda leva dúvidas de espectadores a especialistas da área de economia. "Com isso, nos aproximamos das pessoas e damos voz também às empresas."

Porém, em relação ao conhecimento oferecido nas redes sociais, a recomendação é cautela."É importante perceber que, muitas vezes, a indicação de uma aplicação não é a resposta ideal para uma previdência. Há opções para cada caso", afirma o professor Manuel Enriquez Garcia, presidente da Ordem dos Economistas do Brasil.

"Vemos a iniciativa dos youtubers em ensinar as pessoas a cuidar do orçamento como louvável e bem-vinda. No entanto, é preciso usar o conhecimento obtido para discernir quais as melhores aplicações", diz Garcia.

Fonte: FOLHA

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