27 de janeiro de 2018 às 06:00

Leia dois contos da nova coletânea de traduções inéditas de Franz Kafka

SOBRE O TEXTO Os textos nesta página integram "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias", coletânea de contos do autor que a Civilização Brasileira lança no início de fevereiro. O volume é organizado por Marcelo Backes, que também assina tr

SOBRE O TEXTO Os textos nesta página integram "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias", coletânea de contos do autor que a Civilização Brasileira lança no início de fevereiro. O volume é organizado por Marcelo Backes, que também assina tradução e posfácio e escreveu, para a "Ilustríssima", um ensaio sobre os personagens do autor tcheco.

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O GRANDE NADADOR

"O grande nadador! O grande nadador!", exclamavam as pessoas. Eu vinha das olimpíadas em X, onde havia conquistado um recorde mundial em natação. Estava nas escadarias abertas da estação ferroviária de minha cidade natal —onde é mesmo que ela fica?— e lançava os olhos para a multidão indistinta à luz do crepúsculo. Uma moça, cuja face acariciei fugidiamente, pendurou com agilidade um cachecol em torno de mim, no qual estava escrito em língua estrangeira: "O campeão olímpico." Um automóvel apareceu, alguns senhores me empurraram para dentro, dois deles também entraram, o prefeito e mais alguém. Logo estávamos no salão de festas, nas galerias ao alto um coro cantava e, quando entrei, todos os convidados, eram centenas, levantaram-se e gritaram no mesmo ritmo uma sentença que não consegui compreender ao certo. À minha esquerda, estava sentado um ministro, e não sei porque a palavra me assustou tanto no momento da apresentação, eu o medi selvagemente com meus olhares, mas logo me contive, à direita, estava a mulher do prefeito, uma senhora opulenta, tudo nela, sobretudo à altura dos seios, parecia-me cheio de rosas e penas de pavão. À minha frente, estava sentado um homem gordo de rosto chamativamente branco, não consegui ouvir seu nome na apresentação, ele tinha os cotovelos fincados sobre a mesa —haviam arranjado um lugar especialmente amplo para ele—, estava de cabeça baixa e em silêncio, à direita e à esquerda dele se encontravam duas belas meninas louras, bem divertidas, que não cessavam de ter algo a contar e eu olhava de uma para a outra. Mais adiante, apesar da generosa iluminação, eu não conseguia reconhecer os convidados com nitidez, talvez porque tudo estivesse em movimento, os criados corriam por aí, as comidas eram servidas, os copos, levantados, talvez tudo, inclusive, estivesse iluminado demais. Também havia uma certa desordem —a única, aliás— que consistia no fato de alguns convidados, sobretudo senhoras, estarem sentados de costas para a mesa e de tal modo que não o encosto da cadeira se postasse entre eles, mas as costas quase tocassem a mesa. Eu chamei a atenção das meninas à minha frente para o fato, mas como elas se mantinham tão dispostas a conversar, dessa vez nada disseram, e sim apenas sorriram para mim com longos olhares. A um sinal de sineta —os criados ficaram imóveis entre as fileiras de assentos—, o gordo à minha frente se levantou e fez um discurso. Por que será que o homem estava tão triste?! Durante o discurso, ele tocava o rosto de leve com o lenço, isso até seria tolerável e, inclusive, compreensível, tendo em vista sua gordura, o calor no salão, o esforço do discurso, mas eu percebi com nitidez que tudo aquilo era apenas astúcia disposta a esconder o fato de ele estar secando as lágrimas de seus olhos. Depois de ele ter concluído, naturalmente me levantei e também fiz um discurso. Senti, por assim dizer, a necessidade de falar, pois algumas coisas me pareceram exigir, aqui e provavelmente também alhures, uma explicação pública e aberta, por isso principiei:

"Prezados convidados! Sou dono, há que se admitir, de um recorde mundial, mas se os senhores me perguntassem como foi que o alcancei eu não saberia responder de modo satisfatório. Na verdade, nem sequer sei nadar. Desde sempre quis aprender, mas não consegui encontrar oportunidade para tanto. Mas como foi então que fui mandado por minha pátria às olimpíadas? Esta é justamente a questão que também me ocupa. Primeiramente, sou obrigado a constatar que não estou, aqui, em minha pátria, e, apesar de fazer muito esforço, não consigo compreender uma só palavra daquilo que está sendo dito. A coisa mais óbvia seria acreditar em um engano, mas não há engano, eu bati o recorde, voltei a meu país, meu nome é aquele que os senhores chamam, até este ponto está tudo certo, mas daí em diante nada mais está certo, eu não estou em meu país, não conheço e não compreendo os senhores. Mas, agora, ainda uma coisa que se contrapõe, mesmo que não de modo exato, à possibilidade de um engano: não me incomoda muito o fato de eu não compreender os senhores e aos senhores também parece não incomodar muito o fato de não me compreenderem. Do discurso do prezado senhor que me antecedeu, acredito saber apenas que foi inconsolavelmente triste, mas esse saber não apenas me basta, como já me é demasiado, inclusive. E o mesmo sucede com todas as conversas que tive desde que cheguei aqui. Mas voltemos para o meu recorde mundial...".

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DESEJO DE SER ÍNDIO

Caso se fosse índio, apesar de tudo, logo pronto e sobre o cavalo em disparada, inclinado no ar, sempre estremecendo brevemente sobre o chão a estremecer, até deixar de lado as esporas, pois não existiam esporas, até jogar fora as rédeas, pois não existiam rédeas, e, mal se visse a terra à sua frente como charneca cortada rente, já sem pescoço de cavalo e cabeça de cavalo.

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FRANZ KAFKA (1883-1924), um dos autores mais influentes do século 20, escreveu "O Processo" e "A Metamorfose".

MARCELO BACKES, 44, doutor em germanística e romanística pela Universidade de Freiburg (Alemanha), é autor dos romances "A Casa Cai" e "O Último Minuto" (Companhia das Letras).

ALEXANDRE TELES, 38, é artista plástico.

Fonte: FOLHA

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