04 de janeiro de 2018 às 16:04

DNA de bebê revela história dos primeiros humanos na América

A menina morreu com apenas seis semanas de idade. Seu corpo foi sepultado em um leito de chifres de cervídeos e ocre vermelho, e ela repousou sem ser perturbada por 11,5 mil anos.

A menina morreu com apenas seis semanas de idade. Seu corpo foi sepultado em um leito de chifres de cervídeos e ocre vermelho, e ela repousou sem ser perturbada por 11,5 mil anos.

Arqueólogos a descobriram em um sepulcro da antiguidade localizado no Alasca em 2010, e nesta quarta-feira (3) uma equipe internacional de cientistas anunciou ter extraído DNA dos restos mortais da criança. Trata-se do segundo mais antigo genoma a ser identificado na América do Norte, e ilumina a maneira pela qual seres humanos –entre os quais os ancestrais dos indígenas-americanos– chegaram inicialmente ao hemisfério ocidental.

A análise, publicada pela revista científica "Nature", demonstra que a criança pertencia a uma linhagem humana desconhecida até agora, um grupo que se separou dos demais indígenas americanos pouco depois –ou talvez pouco antes– de sua chegada à América do Norte.

"Trata-se do ramo mais antigo que descobrimos até agora na América", disse Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, um dos autores do novo estudo. Até onde ele e outros cientistas podem dizer, esses imigrantes iniciais perduraram por milhares de anos antes de desaparecerem.

O estudo oferece firme sustentação à ideia de que a América foi povoada por imigrantes vindos da Sibéria, e especialistas classificaram as provas genéticas obtidas como marco histórico. "Jamais houve DNA de indígenas americanos comparável a essa amostra", disse David Reich, geneticista da escola de medicina da Universidade Harvard, que não participou do estudo.

Os restos mortais da menina foram escavados no sítio arqueológico de Upward Sun River, no vale do rio Tanana, no centro do Alasca. Ben Potter, arqueólogo da Universidade do Alasca, localizou o sítio em 2006.

Em 2010, Potter e colegas descobriram ossos humanos no Upward Sun River. Por sobre um braseiro datado de 11,5 mil anos atrás, foram encontrados os ossos cremados de uma criança de três anos. Escavando dentro do braseiro, os arqueólogos localizaram restos de duas crianças pequenas.

As duas crianças receberam nomes da cultura local: a menina se chama Xach'itee'aanenh T'eede Gaay ("menina da alvorada", no dialeto dos Middle Tanana, a comunidade indígena local), e os restos do outro bebê, ou talvez feto, receberam o nome de Yełkaanenh T'eede Gaay ("menina alvorada-crepúsculo").

O conselho da aldeia de Healy Lake e a Conferência de Chefes dos Tanana concordaram em permitir que os cientistas trabalhassem com os restos mortais encontrados, em busca de material genético. Os cientistas localizaram o DNA mitocondrial, transmitido apenas da mãe para os filhos, que sugerem que as crianças tinham mães diferentes. Além disso, ambos os bebês tinham um tipo de DNA mitocondrial presente em indígenas norte-americanos vivos.

A constatação levou Potter e seus colegas a iniciar uma busca mais ambiciosa. O Dr. Willerslev, cuja equipe tem um histórico impressionante de recuperação de DNA de ossos de indígenas norte-americanos sepultados na antiguidade, passou a colaborar com o projeto.

Entre os ossos identificados por Willerslev estão os da Criança de Anzick, de 12,7 mil anos, o mais antigo genoma já recuperado na América, e os do Homem de Kennewick, um esqueleto de 8,5 mil anos, encontrado à beira de um rio no Estado de Washington. Questões sobre a linhagem desse esqueleto resultaram em uma disputa judicial que durou uma década entre cientistas, tribos de indígenas norte-americanos e o corpo de engenharia do exército dos Estados Unidos.

Os nativos norte-americanos vivos descendem de dois grandes grupos de ancestrais. O ramo norte inclui algumas comunidades do Canadá, como os athabascans, e algumas tribos radicadas nos Estados Unidos, como os navajos e os apaches.

O ramo sul inclui as demais tribos radicadas nos Estados Unidos, bem como povos indígenas na América Central e América do Sul. Tanto a Criança de Anzick como o Homem de Kennewick pertencem ao ramo sul, constataram o Dr. Willerslev e colegas.

Por isso, ele estava ansioso por determinar se os restos humanos encontrados em Upward Sun River também faziam parte do grupo. Mas os restos encontrados representavam um imenso desafio científico.

A busca por DNA nos ossos cremados resultou em fracasso, e o Dr. Willerslev e seus colegas conseguiram recuperar apenas fragmentos dos restos de Yełkaanenh T'eede Gaay, o menor dos dois bebês.

Mas tiveram mais sorte com Xach'itee'aanenh T'eede Gaay. Por fim, obtiveram material suficiente para reconstruir com precisão todo o seu genoma. Para analisá-lo, o Dr. Willerslev e o Dr. Potter colaboraram com diversos geneticistas e antropólogos.

Eles descobriram que Xach'itee'aanenh T'eede Gaay estava relacionada de maneira mais estreita com os indígenas norte-americanos vivos do que com quaisquer outros povos vivos ou quaisquer DNAs recuperados de linhagens extintas. Mas ela não pertencia nem ao ramo sul e nem ao ramo norte dos indígenas americanos.

Em vez disso, era parte de uma população até agora desconhecida que divergiu geneticamente dos ancestrais dos indígenas americanos cerca de 20 mil anos atrás, concluíram o Dr. Willerslev e seus colegas. Eles deram a esse povo o nome de "antigos beríngios".

Beríngia é o nome dado ao Alasca e à ponta leste da Sibéria, no passado unidos por uma ponte terrestre que desapareceu no final da última era do gelo. A rota, que apareceu e desapareceu diversas vezes ao longo das era, já vem sendo identificada há muito tempo como provável caminho da migração humana da Ásia para o hemisfério ocidental.

No entanto, as provas arqueológicas eram escassas, talvez porque as povoações costeiras iniciais tenham sido cobertas pela alta do mar. Graças à sua posição única na árvore genealógica dos indígenas americanos, Xach'itee'aanenh T'eede Gaay deu aos cientistas uma ideia clara de como esse imenso passo na história da humanidade pode ter acontecido.

Os ancestrais dela –e os de todos os demais indígenas americanos– partiram da Ásia e compartilham de traços de origem distantes com o povo chinês. No novo estudo, os cientistas estimam que as duas linhagens se tenham separado cerca de 36 mil anos atrás.

A população que daria origem aos indígenas americanos se originou em algum lugar do nordeste da Sibéria, acredita Willerslev. Provas arqueológicas sugerem que eles podem ter sobrevivido da caça de rinocerontes peludos e outros animais de grande porte que viviam na pradaria siberiana.

"O lugar não era ruim, da maneira como o imaginamos ou o vemos hoje", ele disse. Na verdade, a Sibéria parece ter atraído muitos povos geneticamente distintos, que se misturaram amplamente até cerca de 25 mil anos atrás, determinaram os pesquisadores.

Cerca de um terço dos indígenas americanos vivos têm linhagem associada a um povo extinto conhecido como antigos norte-eurasianos, conhecidos apenas com base no genoma extraído do esqueleto de um menino que viveu 24 mil anos atrás.

Mas o fluxo de genes de outras populações asiáticas estacou cerca de 25 mil anos atrás, e os ancestrais dos indígenas americanos se tornaram geneticamente isolados. Cerca de 20 mil anos atrás, de acordo com a nova análise, esses povos começaram a se dividir em grupos geneticamente distintos.

Os primeiros a se separarem foram os antigos beríngios, o povo de que Xach'itee'aanenh T'eede Gaay descende. Cerca de quatro mil anos mais tarde, estimam os cientistas, veio a divisão entre os ramos norte e sul dos indígenas americanos.

De acordo com Ripan Malhi, geneticista da Universidade do Illinois e coautor do novo estudo, esses resultados genéticos oferecem sustentação a uma teoria para a migração humana conhecida como modelo da Parada Beríngia.

Tomando por base estudos genéticos anteriores, Malhi argumentou que os ancestrais dos indígenas americanos não correram para atravessar a Beríngia e se dispersar pela América. Em lugar disso, se fixaram lá por milhares de anos, e seus genes começaram a adquirir variações cada vez mais distintas.

Mas embora o novo estudo conclua que os indígenas americanos tenham se mantido geneticamente isolados por milhares de anos, como Malhi havia predito, não identifica o local exato em que eles se radicaram.

"Os estudos genéticos não estão nos oferecendo localizações, exceto por alguns pontos de referência", disse Potter.

De fato, embora os coautores do novo estudo concordem quanto aos achados genéticos, discordam sobre os eventos que conduziram a eles.

"O mais provável é que houvesse seres humanos no Alasca já há 20 mil anos, pelo menos", disse Willerslev. Ele especulou que os ramos norte e sul tenham divergido mais tarde, há cerca de 15,7 mil anos, quando os ancestrais dos indígenas americanos deixaram o Alasca e se radicaram mais ao sul em terras expostas pelo recuo das geleiras. Potter, no entanto, argumenta que a linhagem que conduziu aos indígenas americanos começou a se dividir em três grandes ramos ainda na Sibéria, muito antes que os imigrantes chegassem ao Alasca.

Apontando para a falta de sítios arqueológicos datados de 20 mil anos atrás na Beríngia, ele acredita que na época fosse muito difícil emigrar da Sibéria para lá. "A divisão aconteceu em algum lugar da Ásia –em algum lugar que não na América", disse Potter.

Se ele tiver razão, os misteriosos colonizadores iniciais do hemisfério ocidental não chegaram em uma única onda migratória. Em lugar disso, os antigos beríngios e os ancestrais das tribos que hoje conhecemos realizaram jornadas separadas. "Mesmo que tenha havido uma só população fundadora, houve duas migrações", ele disse.

Mas todos esses cenários dependem de datações estimadas com base em mudanças do DNA, que podem "ser muito sensíveis a erros nos dados", acautelou Reich. Novos testes são necessários para que se possa confiar em que os antigos beríngios realmente se dissociaram dos demais indígenas americanos 20 mil anos atrás, ele disse.

E embora o novo estudo revele a existência dos antigos beríngios, não revela muito mais aos cientistas sobre o destino final desse grupo.
Mas facas e outros implementos encontrados no sítio de Upward Sun River pertencem a uma tradição, conhecida como Complexo Denali, que perdurou até pelo menos sete mil anos atrás. O povo que produziu implementos como esses em outras partes do centro do Alasca pode ter sido o dos antigos beríngios.

Se for esse o caso, eles teriam sobrevivido por quase 13 mil anos depois de se separarem dos ancestrais dos indígenas americanos. "A arqueologia confirma que eles podem ter perdurado por tanto tempo", disse Potter.

Os indígenas americanos que hoje vivem em torno do sítio do Upward Sun River pertencem ao ramo norte da família genética. O novo estudo indica que seus ancestrais retornaram ao Alasca, ao norte, em algum momento de sua história, talvez substituindo ou absorvendo os antigos beríngios.

Se essa última ideia for confirmada, e se os geneticistas conseguiram sequenciar mais DNA das tribos indígenas do ramo norte, é possível que identifiquem provas vivas de um antigo povo indígena americano que ninguém sabia que existiu.

"Minha resposta à pergunta 'o que aconteceu com os antigos beríngios?' é que nós não sabemos", disse Potter. "E gosto dessa resposta".

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Fonte: FOLHA

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