24 de dezembro de 2017 às 02:00

Disciplina e paciência podem ajudar no aprendizado de matemática

Quando era menino, o marceneiro Paulo Miyazaki Nicoletti, 55, chegou a ganhar como prêmio uma biblioteca por tirar a melhor média em todas as matérias.

Quando era menino, o marceneiro Paulo Miyazaki Nicoletti, 55, chegou a ganhar como prêmio uma biblioteca por tirar a melhor média em todas as matérias.

Como ele, seus três filhos estudaram em escolas públicas e se destacaram.

Pesquisa de economistas do Ipea e do Inep mostra que netos ou bisnetos de imigrantes de várias origens têm resultados melhores na escola que os descendentes de ibéricos, e os japoneses são os que obtêm melhores resultados.

Paulo, porém, não atribui seu sucesso ou o de seus filhos à cultura da família. "Meu pai até reclamou de ter que ir buscar os livros que ganhei como prêmio. Acho que vem embutido nos genes mesmo", afirma.

É justamente o contrário do que tenta provar a professora Cristina Canto, que dá aulas para o segundo ano do fundamental. "Ninguém 'nasce para a matemática'. Todos podem aprender", diz.

Quando ensinava para o sexto ano, ouvia de algumas crianças a queixa: "Nunca aprendi matemática na vida". "Mas que vida, gente? A vidinha delas mal começou."

Segundo Cristina, cativar os alunos para a disciplina e mostrar a necessidade de treino têm sido boas ferramentas para superar dificuldades.

Disciplina não era o forte da policial militar Cassia Helena Muyazaki Nicoletti Froes, 30, mas ela ia bem na escola. Para ela, as expectativas da família é que têm peso: "A gente é criada para nunca aceitar o mínimo suficiente.
Tem que ser sempre superbom em tudo".

A recepcionista Elisabete Shizuka da Silva Umeda, 28, só tirava 9 ou 10 em exatas. "Sempre quis mostrar para meus pais que eu era capaz." Elisabete diz que o pai, motorista, e a mãe, dona de casa, não cobravam esse desempenho: "Era uma coisa minha, mesmo".

No boletim da filha Samira, 8, as notas variam de 7,5 a 9. "Ela gosta de estudar, e eu acompanho bem de perto."

Entre os hábitos de família que passaram de uma geração para outra, segundo a recepcionista, está o de aprender a cuidar de si mesmo logo cedo: "Samira pediu para aprender, e já sabe limpar a casa, fritar um ovo".

Já funcionária pública Ana Paula Shinkawa Gomes, 37, diz que a preocupação com a escola era central em sua família: "Meus pais eram muito humildes e sabiam que para vencer na vida era preciso estudar. Eles trabalhavam para pagar professor particular para a gente".

Ela acompanha de perto a vida escolar dos três filhos, de 10, 8 e 3 anos: "Recebo muitos elogios, porque eles são educados, obedecem, respeitam muito e são participativos".

Ana Paula diz que, quando tiram uma nota "não tão boa", os filhos ficam chateados e tentam se esforçar para ir melhor na próxima.

DISCIPLINA

Pesquisas nacionais e internacionais já mostraram que características socioemocionais estão correlacionadas com o desempenho escolar: alunos mais disciplinados, por exemplo, são também os que têm notas mais altas.

Transformar isso em prática pedagógica ou política educacional, no entanto, não é tão simples, dizem economistas e especialistas em educação.

Na avaliação de Suzanne Duryea, pesquisadora de economia do setor social do Banco de Desenvolvimento Interamericano (BID), mais que o investimento dos pais, foi o gasto público dirigido à educação que levou a uma ascensão do nível educacional entre gerações nas Américas.

Duryea nota que em outros fenômenos, como o da violência doméstica, não foi observado esse progresso. "Isso pode indicar que políticas mais universais, que chegam às famílias por meio de instituições, como as escolas, são mais eficazes para romper os ciclos entre gerações."

O economista Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, diz que, ainda que se saiba que características como concentração e disciplina ajudam no aprendizado, não há consenso sobre como inseri-las no ensino.

ESCOLARIDADE DAS MÃES

Para Menezes Filho, o resultado obtido pela pesquisa de Daniel Lopes, Leonardo Monasterio e Geraldo Silva Filho levanta a questão sobre o que há nas famílias de descendentes de imigrantes que poderia ajudar os brasileiros.

Uma das principais características ligadas ao desempenho escolar, segundo ele, é a escolaridade das mães. Os dados mostram que o aumento na educação dos pais está elevando as notas dos alunos no quinto e no nono ano.

"Será que, se a educação das mães brasileiras for equiparada à das descendentes de imigrantes, essa diferença entre os alunos vai desaparecer?", questiona.

O trabalho de Lopes, Monasterio e Silva Filho relata que a escolaridade dos imigrantes era superior à dos brasileiros quando eles chegaram ao país, no fim do século 19 e começo do 20.

Entre 1872 e 1920, mais de 3,2 milhões de estrangeiros vieram ao Brasil. Em 1920, só 23% dos brasileiros sabiam ler e escrever. Entre os estrangeiros, eram 52%.

Dados também indicam que a escolaridade dos imigrantes japoneses superava a de outras nacionalidades.

NEM TODOS IGUAIS

Hiromi Shibata, professora titular da faculdade de educação da Unip (Universidade Paulista), alerta para o erro de considerar que todos os japoneses são iguais.

Shibata, cujo doutorado tratou da trajetória educacional dos nikkeis, diz que parte das famílias se beneficiou com a expansão do ensino e da industrialização nos anos 1930. "Quando a sociedade passa a exigir mais escolaridade, esses descendentes se destacam."

"Mas, ao mesmo tempo em que famílias nikkeis passam a ocupar espaço em escolas da elite paulistana, nos anos 1980 e 1990, outra parcela de descendentes passa a ir para o Japão trabalhar nas fábricas, aumentando a desigualdade", observa ela.

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RAZÃO E EMOÇÃO
Cinco competências sociemocionais que podem ajudar no aprendizado

1. Abertura a novas experiências
Leva a características como imaginação, curiosidade, amplitude de interesses e criatividade artística

2. Consciência
Inclinação a ser organizado, responsável, autônomo, disciplinado, não impulsivo e orientado para seus objetivos (batalhador)

3. Extroversão
Indivíduo é caracterizado como amigável, sociável, autoconfiante, energético, aventureiro e entusiasmado

4. Amabilidade
Tendência a agir de modo tolerante, altruísta, simpático, não teimoso e objetivo

5. Estabilidade emocional
Previsibilidade e consistência de reações emocionais, sem mudanças bruscas de humor

Fonte: "The Big-Five Trait Taxonomy: History, Measurement, and Theoretical Perspectives", Oliver P. John e Sanjay Srivastava,

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CULTURA E APRENDIZADO
Cinco características da cultura japonesa com reflexo na educação

1. Dívida de gratidão
"On": sentimento de débito em relação aos pais, ao professor, aos chefes ou a qualquer pessoa que tenha feito algo benéfico

2. Honra do sobrenome
"Giri": determinação de evitar situações embaraçosas que possam desonrar o sobrenome ou trazer vergonha para a família

3. Confiança
"Hakikaki": criança é estimulada a ser alerta, disposta, ativa, rápida e clara, e a falar pronta e francamente. Também é ensinada a dominar tarefas pequenas de forma progressiva e controlada, para desenvolver confiança em sua capacidade

4. Disciplina e esforço
"Ganbatte": paciência para persistir e aprimorar sempre o resultado; melhorias são cobradas mesmo de quem já obtém sucesso

5. Autocrítica
"Hansei": prática de fazer um autoexame e procurar sozinho as origens de suas fraquezas; também é praticado por grupos, examinando objetivos e métodos e desenvolvendo planos e metas para sanar falhas e aprimorar desempenho

Fonte: "Descendência japonesa e o bom desempenho em matemática: uma reflexão sobre as causas", Cristina Canto, Faculdade de Educação da USP

Fonte: FOLHA

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