12 de maro de 2018 às 17:02

Com show marcado no Lollapalooza, Rincon Sapiência une rock afro e rap

O sonho de menino de Danilo Albert Ambrosio era o mesmo de muitos outros: ser jogador de futebol. Levava jeito com a bola e seus pais acreditavam que ele poderia ter sucesso em uma carreira profissional no esporte.

O sonho de menino de Danilo Albert Ambrosio era o mesmo de muitos outros: ser jogador de futebol. Levava jeito com a bola e seus pais acreditavam que ele poderia ter sucesso em uma carreira profissional no esporte.

No final dos anos 1990, ele vivia sua adolescência na Cohab, habitação popular em Itaquera, zona leste de São Paulo. Uma onda de bandas de garagem, que surgiu entre jovens do bairro, o influenciou.

Já em 2000, Danilo criou um grupo musical. Tomou gosto pela arte, deixando de lado as chuteiras e a bola para soltar a voz no microfone. "A maioria das bandas [criadas em Itaquera] faziam cover, mas eu já tinha minhas letras", contou o agora rapper Rincon Sapiência, 32.

A busca pela autenticidade musical é uma marca de Sapiência e o levou a misturar rap com ritmos africanos, afro-brasileiros e batidas eletrônicas. "Eu chamo isso de afro rap. Minha base é mais a música afro do que as tendências norte-americanas", afirma.

A diversidade de gêneros que o rapper coloca em suas músicas o ajuda a abraçar um público também diverso. No carnaval de rua paulistano deste ano, se apresentou para 50 mil pessoas na região central de São Paulo.

Também em fevereiro, ele fez parceria com Sidney Magal na música "Um brinde à vida". A canção faz parte das comemorações dos 50 anos de carreira do cantor de "Sandra Rosa Madalena". No single, que fala sobre amor, conquista e sensualidade, Sapiência canta: "Um brinde à vida é sempre legal. E como disse Magal: quero vê-la sorrir".

Na sexta-feira, dia 20, é a vez do Lollapalooza receber as batidas e os versos do rapper. Ele vai se apresentar no Palco Budweiser, pouco antes de Chance The Rapper e Red Hot Chili Peppers. "A gente está se preparado muito para se divertir e não sentir a pressão [em estar em um grande evento]", diz o cantor que se apresenta pela primeira vez no festival.

área de confronto

As novidades continuam na carreira do rapper. No último dia oito, ele colocou no ar o single "Área de Confronto". Acompanhado de videoclipe com estética carnavalesca, a música fala sobre representatividade na maior festa popular do Brasil.

Galanga Livre

O lançamento de seu primeiro álbum, "Galanga Livre", pelo selo Boia Fria Produções, foi no ano passado, depois de 17 anos de carreira, e direcionou novamente os olhos e ouvidos do público ao cantor, que volta a ter protagonismo na cena musical, depois do sucesso de "Elegância", single de 2009.

A estética musical que caracteriza o rapper, presente em trabalhos anteriores, ganhou plena forma no álbum. As canções foram gravadas em seu quarto. Para evitar ruídos do trânsito, tapava a janela com cobertores.
Nas 11 faixas e mais duas bônus tracks, é possível perceber o encontro do rap com funk, samba, ciranda (ritmo pernambucano), capoeira, afrobeat e rock africano.

A crítica gostou do ouviu e viu. Em 2017, Sapiência, com "Galanga Livre", levou três categorias do Prêmio Multishow de Música Brasileira (melhor capa, artista revelação, melhor produtor). O álbum foi eleito o melhor do país pela revista Rolling Stone e ele foi escolhido artista do ano pela Associação Paulista de Críticos de Artes.

Rei do Congo

O encontro com a africanidade aconteceu em 2012, quando visitou o continente africano e encontrou inspiração para dar forma ao afro rap. "Toda essa ousadia de fazer o que faço ganhou força nessa viagem", conta Sapiência, que visitou Senegal e Mauritânia.

O interesse pela sua ancestralidade africana o levou a fazer "intensa pesquisa sobre as monarquias do continente africano". Da investigação, saiu seu segundo nome artístico, Manicongo, "como eram chamados os reis do Congo", conta.

afro rep

A sua vivência reflete em seu trabalho. O ritmo empolgante que marca a batida de Sapiência se une as letras carregadas de crítica social.

A questão racial é colocada de diversas formas em suas canções, muitas vezes com humor e malemolência. Como no single "Afro Rep", lançado em dezembro, em um dos versos ele manda "um salve para o William Waack", jornalista que deixou a TV Globo depois de vazamento de vídeo de conteúdo racista.

A infância de Sapiência "foi pobre e feliz", mas ele cresceu sofrendo situações racistas. "São episódios que não tem como esquecer".

Senhor de engenho

O "Galanga", que dá nome ao novo disco, é Chico- Rei. Conhecido na história oral mineira, o personagem é um rei do Congo que veio para o Brasil como escravo. Na releitura de Sapiência, o monarca congolês cometeu um "Crime Bárbaro" (nome da segunda faixa do álbum): matou o senhor de engenho para conseguir a liberdade. "Escravos apoiam meu desempenho. Fui eu que matei o senhor de engenho", diz a música.
Ainda é necessário "matar o senhor de engenho", afirma. "É preciso matar a estrutura que tira sua liberdade". Para ele, o racismo, homofobia e o mercado de trabalho desigual são exemplos de senhores de engenho atuais.

Sapiência se junta a outros nomes, como Emicida e Criolo, e leva o rap para um público mais amplo, além da periferia. "Além de consumir, jovens de classe média também estão fazendo rap", diz."Acho interessante. Não sou contra um branco fazer ou consumir rap, desde que ele consiga ouvir e identificar com música preta, cultura preta".

O novo sonho de Sapiência é ouvir o rap tocar nas rádios da mesma forma que o sertanejo ou o samba. De acordo com ele, isso é questão de tempo. "A gente precisa se preparar para que quando isso acontecer, os beneficiados sejamos nós, que estamos movimentando a engrenagem, saca?".

Por enquanto, Sapiência, que se considera "um cara espiritual", com passagens pelo Budismo, Movimento Rastafári, Seicho-no-ie e crente em extraterrestres, "se esforça para ter um ócio criativo" em seu quarto, onde recebeu a reportagem, na procura de inspiração para novas músicas.

Em meio a uma cama de solteiro e um guarda-roupas, ele montou seu estúdio. A escrivaninha aloca um computador de mesa e um notebook. Do lado está o microfone, teclado e alguns instrumentos de percussão.
Alguns discos de vinil em uma caixa de papelão encostada no canto do quarto completam o espaço onde o cantor pesquisa, cria, compõe e grava suas canções.

Fonte: FOLHA

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