13 de maio de 2018 às 02:00

Artista italiano do século 13 antecipou o cinema, afirma Walter Carvalho

A memória individual que fica dentro de nós para sempre vem da infância. Como artista da imagem, fui guiado primeiro pelas leituras que mexiam com minha imaginação, depois pelos estudos da pintura, que me educaram o olhar para a vida.

A memória individual que fica dentro de nós para sempre vem da infância. Como artista da imagem, fui guiado primeiro pelas leituras que mexiam com minha imaginação, depois pelos estudos da pintura, que me educaram o olhar para a vida.

Aprendi a gostar de fotografia com o professor Roberto Maia, na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), e me aproximei de imagens cujo impacto colocariam em linha reta meu coração e minha mente.

Robert Frank, Josef Koudelka, Sylvia Plachy, Christer Strömholm e William Klein me condenaram a viver em busca da imagem como a única ferramenta para sentir e interpretar o mundo. A fotografia tomou conta de mim e me fez dependente sem cura para o resto da existência.

Com a primeira máquina na mão, parti convicto de que encontraria uma imagem igual às desses fotógrafos na primeira esquina que dobrasse. Ledo engano. Levei anos para entender que nunca encontraria, mas jamais poderia me livrar dessa procura.

Até hoje ajo em busca da imagem como se cavasse um poço com uma agulha, como sentenciou Orhan Pamuk referindo-se à vontade de escrever diariamente.

Mas foi o Renascimento que antecipou isso tudo e me levou a compreender melhor todos esses fotógrafos de cuja originalidade procurava me apoderar â?”“poetas imaturos imitam, poetas maduros roubam”, escreveu T.S. Eliot.

Debruçando-me sobre os pré-renascentistas, compreendi o homem como a perfeita medida de todas as coisas â?”encontrei Giotto (c. 1267-1337) e minha vida mudou!

Ele foi descoberto em Vespignano, pelo pintor Cimabue â?”que viria a ser seu mestreâ?”, que testemunhou o jovem italiano copiar com um seixo pontiagudo, numa pedra plana e polida, a imagem do que estava diante de seus olhos: suas ovelhas. Não havia aprendido com ninguém, só seguia o seu instinto natural.

Ele rompe com as convenções e impõe ao tempo o seu olhar. Antecipa-se a etapas vindouras e, sem conhecer, mas já intuindo as leis da perspectiva, trabalha a técnica do afresco com pigmentos de tinta diluídos em água, enquanto o reboco ainda estava úmido.

Cria, entre tantas obras extraordinárias, a Cappella degli Scrovegni. Inspirada na vida do Cristo e da Virgem, a pintura é a mais importante obra-prima da arte ocidental. 

O espaço foi construído por Enrico degli Scrovegni, como uma penitência por causa dos pecados de seu pai, nobre paduano conhecido como usurpador perverso e sonegador de impostos.

Após minha descoberta de Giotto, já trabalhando como fotógrafo de still e de cinema, coloquei um personagem de costas para a minha câmera. O produtor interveio imediatamente e protestou, veementemente: “Eu preciso ver a cara do meu ator”.

No remoto 1305, entretanto, o grande artista já tinha usado esse recurso. Em “A Lamentação do Cristo”, um dos momentos mais sublimes da experiência pictórica, os discípulos se agacham em volta do Cristo morto. Simplesmente não vemos seus rostos, colocados que estão de costas para a “câmera”, pela primeira vez na história.

Nesse mesmo afresco, a imagem de são João de braços abertos e corpo inclinado para adiante revela a dor que sente, num gesto apaixonado. E o beijo de Judas, que envolve Jesus com seu manto, formando um só corpo.

Giotto pinta com a luz do dia, o efeito do sol sobre as dobras do tecido inaugurando nova prática. O historiador Ernst Gombrich, comentando a obra, afirma que “a pintura, para ele, é mais do que um substantivo para a palavra escrita”.

Livros de reproduções da capela já não me bastavam, queria chegar perto de Giotto e fui até Pádua como um peregrino. 

Adentrar o espaço sagrado foi como penetrar no próprio tempo. Sem conseguir conter a emoção, fui às lágrimas. Pedi a Lia, minha mulher, que me ajudasse a olhar. Estava diante dos afrescos e pisando o mesmo chão por onde passaram, entre outras figuras, Dante Alighieri e Marcel Proust â?”cuja personagem Françoise é uma criada que se parecia com a “Caridade” de Giotto.

Naquele momento pude sentir, nas pinturas, o que toda arte deve conter e provocar: a emoção sem o tédio da comunicação. Entendi a força narrativa da imagem naquela pequena capela de 1305 e, caminhando lentamente, pude escutar um pedaço de voz baixinha. Era eu mesmo dizendo: foi aqui, com Giotto, onde tudo começou.

Para mim, a capela Scrovegni prefigura o cinema. Giotto cria a ilusão de profundidade numa superfície plana, constrói volume e expressão num pequeno espaço (21 m x 8 m x 12 m). Inaugura o sentido narrativo do gesto pictórico e conta a história através da cor, da montagem e do enquadramento.

Ritmo, psicologia e continuidade compõem a unidade da história encomendada ao pintor. Ao percorrer as figuras com o olhar â?”como no cinema ou em qualquer suporte imagéticoâ?”, o espectador é conduzido para o interior daquela dramaturgia.

Essa é a marca que ficou e me acompanha até hoje. Devo aos poetas que li e aos artistas da pré-Renascença, como Giotto e Cimabue, essa influência. Se eu pudesse traçar uma reta daí até Edward Hopper, diria que se formaria uma linha do tempo que me coloca em constante estado de tensão e atenção com o que penso, o que faço com a fotografia e o uso da imagem.

Por isso estou sempre começando ou recomeçando do zero. De acordo com Cartier-Bresson, “suas primeiras 10 mil fotografias são as piores”. E eu nem cheguei à casa das cem imagens ainda! 

Walter Carvalho, 71, é cineasta e fotógrafo. Foi diretor de fotografia de “Central do Brasil” e “Lavoura Arcaica”. Sua exposição de fotos “Retraço” está em cartaz no MIS até 17 de junho.

Fonte: FOLHA

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