13 de janeiro de 2018 às 05:00

Acervo Folha: Há 120 anos, o jornal 'L'Aurore' publicou a famosa carta 'J'Accuse' (Eu acuso), protesto de Émile Zola

"Excelentíssimo Senhor Presidente da República, permita-me, em gratidão à generosa acolhida que o senhor me deu em uma ocasião passada, apelar para sua justa glória e dizer que sua estrela, tão honrada até aqui, está ameaçada pela maior das vergonhas, a m

“Excelentíssimo Senhor Presidente da República, permita-me, em gratidão à generosa acolhida que o senhor me deu em uma ocasião passada, apelar para sua justa glória e dizer que sua estrela, tão honrada até aqui, está ameaçada pela maior das vergonhas, a mais indelével das manchas.”

Assim começa a carta do escritor Émile Zola ao presidente francês Félix Faure, publicada no jornal “L?Aurore” com o título “J?Accuse” (Eu acuso), em 13 de janeiro de 1898.  Na capa da publicação, Zola aborda o Caso Dreyfus, considerado o mais famoso erro judiciário de todos os tempos.

Em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, oficial judeu do Exército francês, foi acusado de espionagem e de ser o autor de uma carta encontrada pelo serviço de contraespionagem da França, na qual oferecia documentos militares secretos aos alemães.

Com apenas quatro meses de investigação promovida pelas autoridades militares da França, Dreyfus foi condenado em 1895, sofreu degradação militar e foi deportado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

Após a condenação do capitão, campanhas pela revisão e pela manutenção do processo foram promovidas. A discussão cruzou o Atlântico, e, em fevereiro de 1895, o “Jornal do Comércio” publicou um artigo de Rui Barbosa, advogado brasileiro exilado em Londres, com denúncias contra os excessos do militarismo e os descaminhos do julgamento. O texto de Barbosa, publicado três anos antes do panfleto de Zola,  foi o primeiro da série “Cartas da Inglaterra”.

O Caso Dreyfus dividiu a França e promoveu debates sobre os poderes dos militares e o papel da imprensa. Para não manchar a honra do Exército francês, a nobreza, o clero, os antissemitas, os conservadores e os próprios militares ficaram contra a revisão do caso. A esquerda, os progressistas e os liberais lutaram pela revisão e, após outra investigação, levaram a julgamento o verdadeiro culpado, o comandante Esterhazy, que foi absolvido de forma obscura em 11 de janeiro de 1898. No dia 13, o jornal “L?Aurore” publicou a carta de Zola.

“É do redator-chefe a ideia do título forte, emocionado e emocionante, rasgando a página de lado a lado. A carta aberta ao presidente da República termina com oito sentenças curtas que começam com a mesma expressão. Numa opção fulgurante que marcará a história da França e do jornalismo, o redator-chefe puxa a palavra-chave da candente litania e a faz espalhar-se pelas seis colunas: ?J’Accuse? (Eu Acuso)”, afirma Alberto Dines, jornalista e organizador do livro “Diários Completos do Capitão Dreyfus”, na coluna “Cem anos de ?J’Accuse?, as Listas Negras”, publicada na Folha.

“Acuso o comandante du Paty de Clam de ter sido o criador diabólico do erro judicial, inconscientemente, quero crer, e de ter saído em defesa de sua obra nefasta, durante três anos, por maquinações as mais estapafúrdias e as mais culposas. Acuso o general Mercier de ter se tornado cúmplice de uma das maiores iniquidades do século […] Quanto às pessoas que eu acuso, não as conheço, nunca as vi, não nutro por elas nem rancor nem ódio. Não passam para mim de entidades, de espíritos da malevolência social. O ato que aqui realizo não é nada além de uma ação revolucionária para apressar a explosão de verdade e justiça”, diz Zola em sua carta.

Na manhã seguinte, o jornal bateu recorde de circulação ao vender 300 mil exemplares. A repercussão foi imensa e teve suas consequências. No mesmo ano, Zola foi julgado por injúria e condenado a um ano de prisão. O escritor exilou-se em Londres. Onze meses depois, retornou à França, onde ficou até sua misteriosa morte, em 29 de setembro de 1902. 

Em setembro de 1899, Dreyfus foi anistiado pelo presidente Émile François Loubet, mas somente em 1996, um século depois da farsa jurídica que inflamou a Europa, a total inocência de Alfred Dreyfus, que morreu em 1935, foi reconhecida.

Os debates sobre o antissemitismo, a parcialidade de grande parte da imprensa, que liderou um movimento preconceituoso contra Dreyfus, e a reação de intelectuais como Zola, ultrapassaram o tempo e ainda ecoam em nossos dias.

“O “J’Accuse” de Clemenceau, cem anos depois, serve para lembrar que não desapareceu a soberba e o despotismo nos clones daqueles que foram os primeiros algozes de Dreyfus”, afirmou Alberto Dines em janeiro de 1998.

Fonte: FOLHA

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